
Desde os tempos de criança eu sempre me diverti com as histórias que minha avó contava sobre uma família que morava do lado de trás do muro do fundo da casa dela. Pessoas simples, pai, mãe e filha, uma união que eu nunca conheci igual, e como qualquer família tinha seus problemas e suas horas alegres (essas que me faziam rir tanto).
Mudei-me p/ Tupaciguara e passei a conviver perto dessa família, infelizmente o ciclo de vida do senhor Cirilo (o pai) terminou antes mesmo que eu pudesse o ver novamente e sentir aquele carinho que ele carregava em seu olhar inocente como o de uma criança.
Zilda (mãe) e Divina (filha) ficaram sozinhas, e como já era de se esperar, poucas pessoas importavam em saber como as duas estavam ou se tinham ao menos alguém parar conversar e clamar a falta que aquele homem tanto fazia.
Minha avó sempre os ajudou muito, e depois que a Vânia (moça que trabalha em minha casa) surgiu, ela passou a fazer parte dessa solidariedade. Posso dizer que aquelas duas não ficavam sem dar um gritinho roco do outro lado do muro nenhum dia, - ‘’ Ô Elisa’’ – e lá ia minha avó ou a Vânia ver o que estava acontecendo.
Quando percebi também já estava fazendo parte da vida desses dois anjos, a Zilda sempre foi muito vaidosa, me pedia p/ que eu tirasse sua sobrancelha, bigode, enfim, essas coisas que toda mulher comum faz, e lá ia a Rhayani fazer seu ‘’serviço ‘’e dar muita gargalhada com tudo o que aquelas peças raras diziam.
Semana passada acordei assustada com a movimentação e os passos largos em minha casa, já pule da cama e fui ver o que estava acontecendo, em casa tudo é muito tranqüilo, um silêncio, uma paz. Ouvi choros que vinham da casa da Zilda, era a Divina preocupada com a mãe que havia caído e estava com muita dor na perna.
Chamamos a ambulância e logo a enfermeira disse que a Zilda havia quebrado a perna. Foi uma loucura, já pegaram ela e levaram p/ Medicina em Uberlândia enquanto a Divina desamparada dizia-‘’Coitadinha da mamãe...’’
Ficamos esperando por notícias, uma ligação aqui, outra ali, e poucas pessoas se importando com o que tinha acontecido.
Hoje, dia 11 de janeiro de 2011, ouvi minha avó dizer bem cedinho p/ Vânia:
‘’ A Zilda morreu. ’’
Outra vez pulo da cama e vou procurar uma resposta para o que tinha acontecido.
‘’Ela já era de idade e não agüentou a cirurgia, teve um infarto!’’
Mas e a Divina vó? Ela não pode ficar sozinha, eram só as duas, e agora?
Minha vó disse que uma parenta de Uberlândia quer levá-la p/ lá, mas acho que não seria uma boa idéia, afinal de contas, ela está acostumada com a vida simples e pacata da cidade pequena, imagina ela em um lugar onde não se pode nem sentar na calçada direito?- Seria um pássaro livre dentro de uma gaiola-
Enfim, outro ciclo hoje terminou, sei que p/ onde ela foi será bem recebida pelo fato de sempre ter sido um ser humano lindo, e deixará muitas saudades.
Vá com Deus Zilda, e que ele te guie para a vida eterna onde não haverá seres humanos frios, sem carinho e maldosos. Espero que você olhe e cuide dessas pessoas que tanto te amaram e continuam a amar: NÓS!
OBS- a foto foi tirada assim que ganhei minha máquina fotográfica e sai p/ fotografar (a Zilda foi uma das primeiras pessoas que fotografei)...
(Rhayani Paschoalim